CIDADES DO BRASIL INDUSTRIAL - Correio da Lavoura

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16 de set. de 2021

CIDADES DO BRASIL INDUSTRIAL

*Vicente Loureiro


Começaram a aparecer entre nós em meados do século XIX. Na verdade, um complemento dos projetos industriais de então. Compostos pelas instalações fabris em si e pelas infraestruturas que lhe dariam suporte, como açudes, pequenas hidrelétricas e, claro, cidades. De início, eram diminutas, suficientes apenas para abrigar operários, técnicos e dirigentes. Mas, além de vilas de casas, traziam já consigo o núcleo comercial e de serviços com farmácia, armazém, açougue, leiteria, armarinho, acompanhados de escola, posto médico, clube social, agência postal e igreja. Em geral dispostas ao redor de uma praça central ou próxima a ela.


Costumeiramente seus traços urbanísticos tinham certo garbo e elegância. Havia quase sempre uma rua principal, a avenida, na qual penduravam-se pequenas ruas ou mesmo becos, onde se distribuíam as casas simples, mas altivas. Bem melhores do que aquelas que já habitavam o território, configurando pequenos povoados de vida de base rural. Afinal, chegavam com novidades desconhecidas ou pouco usadas na maioria das moradias da época. Assentadas sobre porões e assoalho de madeira, constituída por cômodos ventilados, sem alcova, com pé direito generoso arrematado com teto de estuque abaixo do telhado, possuindo água encanada e banheiro dentro do corpo da casa, entre outras diferenças. Pode-se dizer até que tais inovações foram responsáveis pela disseminação de um novo modo de viver, essencialmente urbano.

Por acaso, nasci e passei a infância em uma dessas cidades e pude conviver com algumas de suas características de origem. Recentemente, ela completou cento e cinquenta anos de vida. Na verdade, é o aniversário da fundação da fábrica de tecidos que a trouxe consigo, acompanhada de uma conexão ferroviária, responsável por sua inserção de fato no mundo novo surgido após revolução industrial. Com hábitos e costumes distintos, tanto das pessoas atraídas para as novas oportunidades de trabalho criadas pela tecelagem de porte, vindas, em sua maioria, da roça como se dizia na época, quanto daqueles então praticados no singelo assentamento existente no local, formado por pequeno grupamento de casas surgido para dar pouso e abastecer campanhas de tropeiros ao pé da serra, a meio caminho entre as minas gerais e a corte.


Para elas, o despertador deixava de ser o canto do galo da madrugada, substituído pelo apito da fábrica a marcar final de um turno e o começo do outro. Fazendo da noite mais um dia de trabalho, novidade para os acostumados a dormir com as galinhas e fazer do percurso do sol o da sua lida diária. Encontros sociais mais amiúde no clube, na igreja ou no comércio traziam e levavam as notícias mais rápido. Respirava se um ar aparentemente de maior independência do que no campo. Apesar de boa parte das despesas serem contabilizadas numa caderneta de anotações, aprisionando boa parte do salário a receber. Ainda assim, a vida na cidade nova parecia melhor. Surgiam sempre oportunidades, mesmo que fossem só num horizonte aparentemente mais próximo.

Hoje não é mais assim. Os tempos são outros. A fábrica fechou faz alguns anos. No início deste século, após um longo período de abandono, o então prefeito da cidade André Ceciliano, atual deputado e presidente da Assembleia Legislativa do Estado, a transformou na Fábrica do Conhecimento, implantando em suas vistosas instalações um conjunto de instituições de ensino público de nível técnico e superior, inclusive as de formação artística e cultural. Mesmo tendo mudado tanto o mundo quanto o lugar, respira-se lá, como sempre, uma vida urbana de futuro promissor. Atestando que a cidade nascida a reboque de uma fábrica, hoje é quem dita os rumos, rebocando ela agora uma fábrica. Deixando-nos a certeza de que uma boa semente sempre pode dar bons frutos. Falo de Paracambi, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, incrementada com a chegada da Companhia de Tecidos Brasil industrial em 1871, um dos exemplos mais notáveis desse modo de fazer cidades no Brasil Imperial, berço de nossa industrialização.

*Vicente Loureiro é arquiteto e urbanista.