Carta aberta a Marina - Correio da Lavoura

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23 de abr de 2018

Carta aberta a Marina

Peço licença a você, caro leitor, e abro esse espaço – consagrado ao prosaico do nosso cotidiano – para que uma cronista bissexta possa aconselhar uma ex-aluna que ora trilha os caminhos do Jornalismo.

Minha doce Marina

Sim, é para você mesma que estou escrevendo. Você que ainda outro dia subiu pela primeira vez os degraus do Colégio EME, destemida e determinada. Você tinha 10, 11, 12 anos? Que importa? Já se passou uma década, e agora me chega a informação de que aquela determinação que tanto me contagiou parece esmaecer frente às agruras do dia-a-dia.

Você há de me questionar “Como não perder a fé diante de tantas incongruências? Como não perder a força diante de tantos desafios? Como matar um leão a cada dia e ainda sorrir?” Essas respostas, eu mesma as procuro há tempos... Garanto que é difícil pensar nisso sem manifestar a vontade inicial de reclamar, e, a cada vez que a vontade vem, penso no volume de pessoas que estão no mesmo barco que eu. E é nesse momento que lembro de uma de minhas irmãs e sua invencível filosofia de vida: Polyanna com seu "jogo do contente". O jogo consiste em procurar extrair algo de bom e positivo em tudo, mesmo nas coisas aparentemente mais desagradáveis. Juro que me esforço, mas confesso achar injusto “jogar” sozinha, buscar coisas boas em tudo, enquanto o mundo não faz nenhum esforço ao me apresentar seu lado cruel.

Lembro de outra Marina, a Colasanti, quando ela diz que “A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. (...) A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma”. A crônica chama-se “Eu sei, mas não devia”, e faz justamente uma crítica ao jeito Polyanna de ser. O acostumar-se significa encontrar o positivo em tudo o que nos revolta e desagrada. E o acostumar-se faz a vida perder-se de si mesma, perder seu sentido.

Talvez, querida Marina, o caminho a se percorrer seja o caminho revelado no verbo “temperar”, quando usado para atenuar ou suavizar o sabor de algo. É preciso temperar a vida. É preciso temperar nossas angústias e (in)decisões. É preciso temperar nossas palavras e reflexões e encontrar um novo sabor para elas. Da mesma forma que Polyanna tempera sua vida de órfã, abandonada à própria sorte; da mesma forma que a cronista tempera seu texto e nos faz pensar sobre a necessidade de salvar nossa pele.

E já que falei de temperos, poderia, agora, enveredar por uma receita que nos ajudasse a amenizar nossas tristezas, a harmonizar nossas incertezas, a conciliar nossos medos e coragens; uma receita que nos ensinasse a temperar nossa existência tão fugaz e efêmera. Você, com certeza, perguntaria “Vale a pena?”.   E eu plagiaria outro querido, o Rubem Braga, e teria uma resposta na ponta da língua “Nada adianta coisa alguma, a não ser o tempo; e escrever essas bobagens (que alguns chamam de crônica) é um meio tão bom quanto qualquer outro de passar o tempo.”


Com carinho,

Elizabeth Lucena