*Jorge Gama
Há uma enorme agitação na política e nas mídias, tanto na tradicional quanto nas redes sociais e até nas ruas, na tentativa de explicar a recusa, pelo Senado, do nome de Jorge Messias, indicado por Lula ao STF.
Ser indicado por Lula é uma coisa, está na lei e é prerrogativa do presidente da República; ser o indicado de Lula é diferente: trata-se de uma preferência pessoal. Neste caso, são as duas coisas.
Voltemos ao clima de frenesi que domina as análises sobre o fato.
O Dr. Jorge Messias pode dormir tranquilo mesmo após sua “degola”. Seu nome, sua qualificação profissional e o requisito de notável saber jurídico nada disso pesaram no resultado. Ainda que a sabatina tivesse ocorrido à distância, o desfecho seria o mesmo: o veto.
Em uma visão ainda mais realista, pode-se afirmar que, mesmo sem a sabatina, que tradicionalmente tem caráter homologatório, nenhum nome indicado pelo Planalto, especialmente por Lula, seria aprovado.
O Dr. Messias, mesmo conhecedor dos mais altos círculos de poder, estava, neste momento, no lugar errado, na hora errada.
É sempre difícil, na vida, recusar uma indicação para o cargo de ministro do STF, historicamente marcado por risco quase nulo de rejeição.
Como se observa, o momento político atual é outro. A disputa está mais acirrada do que nunca e já ultrapassou a esfera meramente eleitoral, avançando para o campo político-ideológico. De um lado, a esquerda, que está no poder há mais de 20 anos, com um breve intervalo de um governo de direita; de outro, a direita, hoje mais fortalecida, especialmente nas redes sociais, que afirma que pretende voltar ao poder.
Nesse ambiente, nada está fora da disputa e tudo passa a ser contabilizado.
Todos os movimentos, de ambos os lados, são observados, defendidos, criticados e incorporados aos números das pesquisas encomendadas pelas partes em disputa.
O bolsonarismo não dorme e mantém vigilância constante sobre os acontecimentos no governo Lula e no STF.
O governo Lula, em seu terceiro mandato, acredita que o Congresso é, em alguma medida, domesticável e que nada ultrapassará a linha vermelha traçada pelo Planalto.
No campo eleitoral, a direita enxerga um Brasil que estaria “acordando” e busca acelerar esse processo. Já a esquerda sustenta sua base com Lula e a ampliação de programas sociais, como o Bolsa Família 2.0.
A população - ou a opinião pública - faz sua própria releitura, seja de forma silenciosa, seja pelas redes sociais, do resultado da votação no Senado, muitas vezes sintetizando a percepção em frases diretas como: “Bolsonaro preso derrotou Lula no placar do Senado”.
*Jorge Gama é advogado e ex-deputado federal.
