ARMAZÉM, BAZARES E ARMARINHOS - Correio da Lavoura

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17 de mai. de 2021

ARMAZÉM, BAZARES E ARMARINHOS

Vicente Loureiro


Era guri, não tinha nem meia dúzia de anos de vida. Morava em Paracambi, uma cidade pequena e industrial de nascença, com hábitos urbanos, à época, já quase centenários. Meu avô, contramestre de tecelagem de uma grande fábrica de tecidos local, tinha dois turnos de trabalho com intervalo bem espaçado entre eles. Nele, almoçava, lia jornal, tirava uma soneca e ia às compras. Diariamente, pois era como se fazia naquele tempo. E de bicicleta, com uma cadeirinha na frente para me carregar junto e um porta embrulho atrás por ele customizado.

À distância ao centro da cidade não passava de um quilômetro. Quando era pouco o que comprar, fazia-se o trajeto a pé. Sempre alinhado e conversador, ele parava várias vezes no caminho mesmo quando de bicicleta. Para uma pequena prosa aqui e ali, além das inúmeras saudações e cumprimentos. Tinha amigos e assuntos vários. Era um homem de cidade. Havia adquirido urbanidade na prática e gostava de exercê-la. Diria, até, que com certo charme e elegância. Orgulhava-se de ser bem-apessoado e ter boa educação. Seus destinos prediletos nessas idas diárias ao comércio de Paracambi eram, invariavelmente, o armazém do Nozinho, o armarinho do Zé Belo e o bazar do Cristiano.

No armazém, um quilinho disso ou daquilo, um punhado de biscoitos, um pedaço de toucinho, ou um enlatado qualquer preenchiam a lista do dia. Parede meia com o armazém, havia o bar do mesmo dono. Passava-se de um para o outro quase sem sentir. Ali, o tempo de um café ou de uma pinga limitava o jogar conversa fora. Minha espera indócil domava-se a pés de moleque ou caramelos. Já no bazar, cada dia uma agonia a resolver. No meio de tantas mercadorias, o dono sabia sempre encontrar o que se pedia. Se por acaso estava em falta, uma encomenda ficava logo registrada. Dias depois, mais ou menos como e-commerce de hoje, ela chegava e era anunciada ao freguês de caderneta com a distinção merecida. Naquele lugar, o encanto de tantos objetos a mostra distraia minha atenção enquanto mastigava ainda as guloseimas ganhas no balcão do armazém.

A última parada dessa viagem era o armarinho. Também havia para ele demanda renovada quase todos os dias. Quando não, o passeio do olhar pelos balcões e vitrines multicoloridas abarrotadas de tecidos, linhas, botões e aviamentos seduzia, fazendo a clientela lembrar de ocasião próxima merecedora de um traje novo ou razão para um presente vistoso. Naquele sortido armarinho, mesmo sem ter o que comprar, a visita era bem-vinda e o dono mesmo esbaforido sempre encontrava tempo para troca de impressões e novidades com o velho amigo. O tempo ali costumava demorar mais a passar.

Na volta para casa, parava-se na banca de revistas para aquisição do jornal vespertino de manchetes exageradas tão ao gosto de minha avó. Recorro a essas memórias pessoais para me preparar, para daqui a 4 ou 5 anos, tentar algo semelhante: fazer, no cotidiano, com o meu neto que acaba de nascer, coisas assim tão banais quanto eternas. Não existem mais armazéns, armarinhos e bazares por aqui onde vivo. Até lá, mudanças no varejo seguirão acontecendo. Sei que os tempos são outros e os hábitos e necessidades de consumo também mudaram. Mas gostaria de oferecer ao netinho a oportunidade de ver a vida se realizar, com certa repetição é verdade, mas cheia de sabedoria, civilidade e leveza. De uma coisa eu tenho certeza, não vou levá-lo a nenhuma dessas drogarias impessoais que mais parecem supermercados, onde o “senhor tenha um bom dia” é fruto de um treinamento homogeneizado e sem emoção dado aos balconistas. Há de existir por aí algum comerciante do tipo Nozinho, capaz de oferecer a ele, meu neto, um singelo, mas inesquecível, caramelo, fazendo do ato de comprar e vender mais do que um simples e frio negócio, uma experiência de gratas lembranças.

*Vicente Loureiro é arquiteto e urbanista.