CRÔNICA DO SURREALISMO IGUAÇUANO ll - Correio da Lavoura

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3 de mar. de 2020

CRÔNICA DO SURREALISMO IGUAÇUANO ll


A Região das Grandes Águas - 

Por Leandro Miranda


Eu, um qualquer chamado João, no meio do meio da noite fui levado a um pesadelo vestido de sonho, por um homem com cara de pele de cordeiro. Este se apresentava como um amigo e me levou a um lugar de muitas águas, de muitos azuis marinhos, de muitas ondas de cores verdes águas.

E dali, de onde me encontrava, podia ver o cume alto de um monte de onde raios brancos e fluorescentes subiam e desciam do céu, enquanto o homem com cara de pele de cordeiro insistia para eu olhar para falsas joias e bijuterias, que para olhos mercenários pareceriam verdadeiras. E então: “... reluziu, é ouro ou lata, formou a grande confusão...”

Foi quando um outro homem vestido de peixe que, exibindo uma grande nadadeira, se aproximou com pose de “o dono do mundo”.  Um pouco mais distante, um outro homem vestido de bobo da corte passava num sky aquático e perguntou para o tal “dono do mundo”: “Você acha que eu tenho cara de otário?”, como quem tentava me dar um aviso.

O homem vestido peixe olhou para aquele, com uma cara e um sorriso de um ingênuo golfinho, mas cuja boca parecia esconder dentes de piranha. Foi quando o homem sobre o sky aquático, que já cansado de tanta pescaria, o convidou para almoçar em sua casa dizendo que lhe prepararia um peixe na brasa com farinha. E para o lugar de onde tinha vindo, voltou, em cuja porta havia um lindo touro cinza à espera de quem lhe pudesse montar. Cujo touro escondia atrás de si, muitas histórias guardadas em suítes de quartos de repousar em poucas temporadas de verão.

Então, olhei e vi que o homem com cara de pele de cordeiro, estava com uma pose de quem trazia um rei na barriga e exibia pomposamente uma faixa que cruzava o seu corpo e  que fazia questão de ostentar e mostrar para todos. Em cuja faixa estava escrito na cor do bronze, um nome de “matuto, caipira e roceiro”. Voltei a olhar para o cume alto do monte e vi, que os raios continuavam a subir e descer do céu, enquanto uma cortina se abria e fechava, como quem queria esconder pedras seguras e mostrar muitas pedras falsas, que estavam colocadas em enormes faixas de areia branca como farinha.

Nesse momento, o homem vestido de pele de cordeiro, abraçou o homem vestido de peixe como se fossem grandes amigos e, me convidando para fazer parte da dupla, dizia que o homem vestido de peixe mandava naquele lugar e era “o dono do mundo”.

Levado e enganado por falsas caras de golfinhos, mas que pareciam esconder, consecutivamente, dentes de tubarão e piranha, me deixei levar pela dupla. Que agora não eram mais uma dupla e sim um grupo de pessoas, que também ostentavam faixas que cruzavam seus corpos, com a mesma inscrição na cor do bronze com um nome de “matuto, caipira e roceiro”. O homem vestido de peixe lhes prometia que espalharia seu cartaz por toda uma carcomida região de grandes águas, onde um jereco, que tentava subir ao vento que levantava a onda do tal “dono do mundo”, se agitava eufórico de um lado para o outro, com a rabiola pegando fogo. Tornei a olhar para o alto do monte, por onde subiam de desciam os raios, e vi que o alto do monte foi retirado e levado para o céu como num grande “Ai”!

Olhei para o chão e vi que eu pisava em um papelão corrugado, pintado como que em pequenos quadradinhos coloridos, que me lembraram escamas de peixe. Enquanto o grupo de amigos do homem vestido de peixe apontavam para ele, que se equilibrava no alto da crista de uma onda e ostentava um cartaz que trazia a inscrição “o dono do mundo” com a sua imagem.

Eu olhava para os meus pés que pisavam o papelão corrugado e perguntava a mim mesmo: “Que papelão é esse”? Foi quando um outro homem muito alto e forte, que se me apresentou como o financiador do “dono do mundo”, disse que também era meu amigo e que também seria meu financiador. Enquanto ele tentava traçar uma relação entre o papelão corrugado que eu pisava e a crista da onda onde se equilibrava o tal homem vestido de peixe.

Voltei a olhar para o alto do monte e vi, novamente, que a tal cortina abria e fechava e eu podia ver através dela que em meio as pedras falsas, algumas eram seguras. Então, o homem alto e forte que se me apresentava como o financiador do “dono do mundo”, tentou tirar o papelão corrugado debaixo dos meus pés, tentando me fazer cair e, ao mesmo tempo, fazer dele uma nadadeira para o homem vestido de peixe. Então lhe disse em tom muito sério: “Que papelão é esse!!!” E gritei para o homem vestido de peixe que estava na crista da onda: “Que papelão é esse? Cuidado, onda errada dá caixote!”

Foi quando vi o homem, que se dizia ser o financiador, levantar uma caixa de papelão que estava no chão por três vezes e, debaixo dela, nas três vezes, eu via cocô de gente. Então, o homem vestido de peixe se aproximou de mim, me mostrando o cartaz que fazia questão de ostentar, como quem quisesse me colocar no lugar mais baixo da crista de sua onda, com a intenção de me afundar. E do lugar de onde fui colocado, o encarava como um peixe leão ferido, o desafinando com a cara e o tom da voz do Matita Perê, enquanto eu ouvia o canto de um pássaro que passava naquele momento, mas que eu não sabia onde estava e nem de onde vinha.

A partir daí, se deu a afronta e a rivalidade entre o que se equilibrava no alto da crista da onda e eu, um simples João ninguém, que estava posto no local mais baixo da crista da onda, pisando num chão de papelão corrugado pintado como escamas de peixe. Olhei novamente para o cume alto do monte e vi que o alto do cume do monte que havia sido retirado, estava descendo do céu e sendo posto novamente no lugar. Então, se aproximou de mim uma senhora que se parecia com duas mães, trazia no alto da cabeça a estrela de Belém e no pescoço um cordão com o nome de Nazaré das Farinhas. Ela me cobriu com uma coberta, macia e muito antiga e que só eu podia ver, onde nela ela se ocupava em fazer seus fuxicos.

Em seguida, vi um outro homem que cobria o corpo com um jornal aberto, cujas pernas estavam vestidas de meia arrastão vermelha, trazia nos pés sapatos de saltos muito altos, tinha os cabelos embaraçados como quem acorda de manhã, na cor oxigenada, que lembrava palha amarela de milho transgênico. Ele vinha para cima de mim, querendo me intimidar, me ameaçando com o poder da comunicação, enquanto tentava me enrolar, me envolver, me embalar com o jornal, enquanto se enchia de poder só com a possibilidade da enorme manchete “O DONO DO MUNDO NA REGIÃO DAS GRANDES ÁGUAS”. Em cuja capa do jornal, uma manchete mostrava a balança e a espada da justiça que julgava e condenava vigaristas, farsantes, charlatões, criminosos, corruptores e foras da Lei.

Foi quando se deu o juízo final.

O tal financiador e o homem vestido de peixe, que tentava se fazer de anjo levantando, agora, duas nadadeiras e que parecia ter sobras de farinha no rosto, me olhava de cima a baixo “medino” minha altura para ver se poderia tirar minha onda. Eles se aproximaram de mim querendo se apropriar do meu tempo e de suas histórias, onde nelas portas lhes eram batidas na cara, sendo-lhes dito que cada tempo e cada história já havia seus donos e seus representantes. Com isso, eu via o poder do tal “dono do mundo” e seu financiador ir se limitando à densidade das águas, onde só o tal homem vestido de peixe conseguia se equilibrar e seu financiador aumentar suas finanças; enquanto o tempo e a natureza lhes determinavam seu domínio. Então, eles viram que seus domínios lhes eram limitados aos tempos das suas próprias histórias e, que seus domínios e histórias, estavam também limitados pelo tempo e pela densidade das águas, que está sujeito ao que é natural. Absorto e em meio a tais questionamentos, o homem vestido de peixe acabou por pegar uma onda errada levado por um grande papelão e acabou por levar um enorme caixote, que trazia dentro dele cocô de gente, que ao final, vi que eram levados por marolas à beira-mar, enquanto o financiador contabilizava seu prejuízo.

Então, pude ver os tais seus amigos que ostentavam as tais faixas que trazia a inscrição “caipira, matuto e roceiro”, como que abaixados no chão, ajoelhados, endeusando o tal homem vestido de peixe como se ele fosse o deus sumério Oanes, que passava por eles os excomungando e esbravejando dizendo-lhes: “Vão para o raio que os partam!!!” Enquanto tentava tirar uma espinha de peixe que estava atravessado em sua garganta.

Voltei a olhar para o cume alto do monte e pude ver a tal senhora com cara de duas mães e, ao lado dela, o touro cinza que trazia um nome de “o rei do mundo” e o bobo da corte. Estavam embaixo de um antigo alpendre feito de telhas coloniais de uma simples casa de pau a pique, de onde me mostravam um quadro. Nele estava pintado um homem sem camisa, em cuja barriga, no lugar do intestino, havia um trono e nele estava assentado um rei que comia uma cocada preta e vestido com uma roupa alugada.

Então, abri os olhos e vi que o dia estava nascendo para um novo tempo. Eu ainda podia ouvir a voz do homem com a cara de cordeiro, que agora trazia escrito em sua testa um nome de petulância e falsidade, dizendo: “Só falta sentar num trono melhor que o meu!” enquanto tentava mascar um quebra-queixo. Olhei no calendário e nele estava um vagalume que perguntava a uma cobra: “Por que queres me comer? Não faço parte de sua cadeia alimentar!” Ao que a cobra lhe respondeu: “É que seu brilho me ofusca” e era dia 02/02/2020.