HÁ EXATAMENTE UM SÉCULO... ERA CRIADA A PREFEITURA DA CIDADE DE NOVA IGUAÇU - Correio da Lavoura

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3 de dez. de 2019

HÁ EXATAMENTE UM SÉCULO... ERA CRIADA A PREFEITURA DA CIDADE DE NOVA IGUAÇU

*Por Allofs Daniel Batista


Escrevo estas poucas linhas diante da passagem surda e muda do centenário da criação da prefeitura e do cargo de prefeito da cidade de Nova Iguaçu, que se dá no momento em que redijo. 

Aos 26 de novembro de 1919, através de decreto de número 1716, o Presidente do Estado do Rio de Janeiro criava a prefeitura e a provia com seu primeiro prefeito. O nomeado foi o então jovem Mário Pinotti. O pesquisador iguaçuano, Adriano dos Santos Moraes, descreve assim o primeiro prefeito e seus objetivos primários na cidade: “nomeando o sanitarista paulista Mário Pinotti, chefe do posto de profilaxia rural no município, para o cargo mais alto do executivo municipal. A escolha do médico não é desmedida, pois o mesmo foi trazido para o Rio de Janeiro através de uma iniciativa do Presidente do Estado de estabelecer convênios com o Diretor Geral de Saúde Pública Carlos Chagas.”.

Este momento fundante da administração municipal de nossa cidade passa despercebido da grande maioria de nossa população. Mas isto não acontece por acaso. O fato é que, sem medo de exageros, com exceção de poucas luzes e do já antigo farol que é o Correio da Lavoura, que guia aqueles que têm destino a busca pelo conhecimento do passado, Nova Iguaçu é uma cidade sem memória. Não significa dizer sem passado, ou ainda sem história. Mas o silencioso e permanente descuido com nossa memória produz fenômenos como este. O esquecimento! 

Mas o que teríamos a comemorar no centenário da criação da prefeitura e, consequente, do cargo de prefeito? Antes de responder a esta questão devemos ainda nos perguntar: mas por qual razão a cidade de Nova Iguaçu não pode produzir a narrativa de suas memórias? O que temos que esconder no esquecimento? Temos vergonha de nosso passado?

A primeira coisa que podemos responder assertivamente, sem medo de errar, é que nos faltam instituições municipais com a efetiva atuação na área. Nova Iguaçu possui uma população de quase um milhão de habitantes, mas não possui um museu público, tem um centro de memória criado por decreto em 2012, mas sem provimento de servidores desde 2016, e que nunca teve orçamento. A FENIG e a Secretaria de Cultura da cidade possuem em seu escopo o aspecto da história e memória regional e local em seus documentos originários, no entanto, além das limitações orçamentárias, dão seus esforços para atender às demandas pontuais das gestões correntes, sem desenvolver programas voltados para a pesquisa, promoção e difusão de nossa história e memória. E isto não é uma característica da gestão atual, é o padrão histórico. A Câmara de Vereadores da Cidade de Nova Iguaçu poderia oferecer um alento ao iguaçuano e aos visitantes da cidade, mas também passa longe daquela casa esta preocupação.

Mário Pinotti, o primeiro prefeito Nova Iguaçu 
Logo, sem uma instituição municipal dedicada ao papel que aqui reivindicamos, realizar política pública dedicada à pesquisa, promoção e difusão da história e memória, a cidade carece das iniciativas individuais de professores, pesquisadores e apaixonados. Ainda há algumas instituições de ensino superior, como a UFRRJ, que na última década se estabeleceu aqui, produzindo pesquisas. No entanto falta diálogo destas com a população. Nossa experiência induz a conclusão de que sem um mediador entre o que se faz no mundo acadêmico e a população, este abismo não será transposto.

Voltando ao ponto que nos trouxe a este texto. Nosso objetivo não é apenas escrever uma nota de pesar pela passagem silenciosa desta data, sem nenhuma realização. Ao contrário, em 2017 iniciei um projeto que dava sequência à minha pesquisa, quando produzi em paralelo à dissertação um Dicionário Histórico-Biográfico com personalidades da política de Nova Iguaçu. Nada de grande folego. O objetivo do projeto seria a escrita de um livro com a biografia política dos prefeitos, e prefeita, da cidade. Cerca de 80% da pesquisa está feita. Por diversos motivos a atividade não pode ser levada a cabo. 

Enquanto escrevo estas linhas, nas redes sociais iniciei um diálogo com outros pesquisadores - M.e Adriano dos Santos Moraes e o professor Alexander Gama Elias – e estamos lançando um apelo público para nos ajudar a concluir aquele projeto ao longo do centenário.

Quem tiver entre seus pertences: fotos, documentos, dados e informações sobre os prefeitos da cidade de Nova Iguaçu, que queira contribuir com nossa pesquisa, gostaríamos que entrasse em contato conosco. Todo colaborador receberá os devidos créditos. Acreditamos que através deste apelo, nas páginas do Correio da Lavoura, poderemos alcançar pessoas que fizeram parte de gestões passadas, do convívio ou com parentes de ex-prefeitos, e pesquisadores que estão fora de nosso círculo de amizade. Toda colaboração será bem vinda!

*Allofs Daniel Batista é mestre pelo PPGH/UNIRIO, fez Licenciatura em História pela a UFRRJ/IM (Campus Nova Iguaçu), quando atuou no projeto de digitalização do Correio da Lavoura. Foi conselheiro de cultura, promovendo a criação e atuando na presidência da Comissão Permanente de Patrimônio Histórico e Cultural (material e imaterial) no Conselho Municipal de Políticas Culturais de Nova Iguaçu. Atuou como gestor do Centro de Memória de Nova Iguaçu. Foi Coordenador da Superintendência de Patrimônio Arquitetônico e Urbanístico da cidade de Nova Iguaçu, onde se dedicou à produção de políticas públicas para a proteção, preservação, pesquisa e difusão do patrimônio cultural, material e natural do município. Professor de História da rede municipal da cidade de Duque de Caxias e de Seropédica. Contatos: allofs09@gmail.com. Whatsapp (21) 9 8177-9304.