CORTEMOS OS CORTES - Correio da Lavoura

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17 de mai de 2019

CORTEMOS OS CORTES

Por Victor Loureiro



Não sou um “idiota útil” e muito menos um “útil idiota”. O pensar livre não pode existir num país que polariza até espirro, num país que cria antagonismos, dentro dos quais é necessário curvar-se a verdades mais partidárias do que verdadeiramente públicas. 
         
A alcunha “idiota útil” é um termo pejorativo utilizado para aqueles que servem ao discurso das utopias de esquerda, no nosso caso latino americano, que defende uma utopia chavista. Posso dizer, então que não sou de esquerda. No entanto, sou de esquerda quando não aceito que um deputado ou um comerciante valham dezenas de vezes mais do que um trabalhador sem mandato ou sem capital de giro (sempre achei esse termo chique); quando sei que o Brasil precisa de mais investimentos e eficiência, não a bancária, tanto na educação básica como nas universidades públicas. 

Por motivos óbvios, com os quase quinze milhões de analfabetos úteis, sem contar os funcionais, mesmo considerando os avanços dos governos do PT nessa área durante treze anos, é irritante não fazermos nenhuma autocrítica nesse campo. Na minha humilde opinião, o atraso acachapante da qualidade de ensino no nosso país deve-se à distribuição mal feita dos recursos e das responsabilidades na gestão da educação pública, ou seja, reside num erro estratégico e estrutural. 

Estou convencido de que os avanços alcançados pelo Partido dos Trabalhadores, através das oportunidades oferecidas pelas Universidades Públicas como, por exemplo, as cotas, ficaram restritas ao ensino superior devido a uma óbvia relação de causa e efeito, empírica, de responsabilidade burocrática do Governo Federal sobre o ensino universitário.

A educação básica, essa fica a cargo do estado e dos municípios. E eis aí o problema. Menos recursos, menos qualidade, menos eficiência, “menos educação”. Costumo ironizar essa situação esquizoide, dizendo que, se o Brasil não mudar a legislação, passando a gestão da educação básica para as mãos do Governo Federal, estaremos fadados a um analfabetismo eterno. A estrutura define a conjuntura? Acho que sim. 

O mais fascinante na discussão em torno da educação é que nenhum plano cartesiano sobre esse assunto é capaz de dar conta da formação do indivíduo. Prometi para mim mesmo que, neste texto, não iria falar do governo Bolsonaro e dos filhos dessa “onda”, mas é impossível não comentarmos a ignorância, a insensibilidade e a falta de equilíbrio no texto desse time. Meu Deus, os responsáveis por essa pasta no atual governo não cometerão erros, cometerão assassinatos culturais, enterros de sensibilidade humana. Mas essa triste constatação não é o suficiente para obter resultados positivos na educação popular. 

Prefiro falar de nossas maiores contradições. Tenho uma regra básica para medirmos avanços reais nessa área. Se os filhos de “ricos” de esquerda e/ou de direita, começarem a matricular seus filhos nas escolas populares, não por queda em seus orçamentos, mas por constatarem que há uma indiscutível qualidade nessas unidades escolares, não tenha dúvida, estaremos num país mais justo, menos analfabeto, mais forte, mais sensível e, definitivamente, mais humano.

Ser de esquerda, pra mim, e gosto disso, é desejar para os meus alunos de periferia e pobres o mesmo que desejo para os meus filhos. Se não for assim, o que será?  Se meus alunos desejam as mesmas coisas que os meus filhos, significa que aqueles desviaram-se da causa revolucionária, do compromisso com a “luta”? Por favor, precisamos elevar o nível da discussão.  Mas como encontrar e selecionar argumentos necessários à discussão saudável, se a Filosofia foi banida dos currículos? Como derrubar as falácias travestidas de fake news, se cortaram a cabeça da mãe de todas as disciplinas?

Por falar em “cortes”, não cortem a minha paciência. Cortemos o analfabetismo, o racismo, a homofobia, o abismo social, o preço dos alimentos, as supremacias intelectual e econômica, para que não precisemos cortar, na carne, a esperança de dias melhores.

Cortemos, pois, os cortes.