ANDANDO POR AÍ - Correio da Lavoura

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3 de abr. de 2019

ANDANDO POR AÍ


POR JOÃO DA RUA

A profecia do meu avô

Meu avô materno morreu em 1961. Uma arteriosclerose o havia imobilizado numa poltrona, onde passava o dia inteiro. Sem fala, mas com visão e audição, observava tudo a seu redor, no estreito espaço de uma casa de avenida, onde as pessoas e as irmãs do convívio profissional de minha tia – que era hábil costureira – circulavam numa rotina que tornavam previsíveis todos os dias da semana em sua invariável rotina.
Meu querido e saudoso avô, um kardecista de sacerdotal devoção, me proveu na infância e na adolescência – os tempos de minha curta convivência com ele – que os devotos sinceros, de qualquer linha religiosa, beiram a sabedoria quando amadurecem verdadeiramente suas convicções doutrinárias. Ele encarnava muito bem esse caráter, até porque minha lembrança é de um senhor, já aposentado da sua querida Estrada de Ferro Central do Brasil, numa trajetória de dedicação e competência que o fez ser inscrito, nos anais da EFCB, como funcionário exemplar, “o mestre dos mestres”, assim definido como operário que contribuiu, a seu tempo, para fazer a história da mais importante rede ferroviária nacional, de origem imperial desde sua fundação por D. Pedro II.
Pois bem, o velho Adolfo, como espírita devotado à doutrina corporificada por Allan Kardec, tinha dentro dele uma característica bem visível nos kardecistas de sua geração inaugural da doutrina no Brasil: o hábito da reflexão. Diante dele, não saíamos do encontro familiar sem lhe pedir uma opinião, um conselho, uma palavra que fosse sobre este ou aquele assunto, sobre esta ou aquela pessoa. A resposta, nem sempre afirmativa – não tinha receio de revelar as certezas de suas dúvidas –, vinha lenta, vagarosa, logicamente pensada por quem aprendera ao longo do tempo a não ser deixar levar pelo impulso, pela frase apressada destituída de qualquer reflexão. E foi num desses momentos, quando ele ainda tinha voz, indagado sobre o que achava das turbulências políticas decorrentes da renúncia de Jânio (1961) e o consequente impedimento de Jango, o vice, pelos seus velhos desafetos militares, problema que só foi “solucionado” pelo remendo improvisado parlamentarismo, meu avô apenas me disse: “Meu filho, as forças do mal, quer dizer, as falanges do mal estão sempre presentes. Elas, ao longo da história, jamais nos abandonaram. Estão sempre aí. O bem é temporário. (Um dia, não sabemos quando, ele será permanente). Mas enquanto isso não acontece – e não será para o meu tempo, que já me encontro no fim da jornada, e também não será para você e nem para os seus netos –, teremos que resistir às falanges do mal. Combatê-las, reconheço, não é tarefa fácil. São muito mais poderosas do que imaginamos. Vocês, meus filhos, que estão começando a viver agora, tenham cuidado. Não permitam jamais que essas falanges sequestrem de vocês a esperança de viver num mundo melhor, de justiça e igualdade”.  
Aos 14 anos, estava diante de um profeta e não sabia.