Andando por Aí - Correio da Lavoura

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20 de fev. de 2019

Andando por Aí

POR JOÃO DA RUA
  
É luto só
 
1. Estamos mal. O ano de 2019, além de nos anunciar, por intermédio do governo, o desmonte do Brasil, vem ao mesmo tempo cobrindo de luto a população brasileira – essa gente que, nós nos últimos tempos, não tem tudo prova alguma de que Deus é, verdadeiramente, brasileiro.
Todos esses desastres estão refletindo, na verdade, a ausência do espírito público. Esta tem sido a marca do Brasil, há muito mais tempo do que a maioria razoavelmente informada imagina.
Quando me refiro aqui ao grande golpe de 1964 – e já lá se vão 55 anos – sustento que o movimento civil-militar que derrubou João Goulart impediu que seguíssemos o nosso curso natural, interrompeu um experimento democrático real inaugurado com a Constituição de 1946 e que, desgraçadamente, não chegou a comemorar sua maioridade. Foi interditado, sob argumento (que agora retorna) de impedir a comunicação no Brasil, aos 18 anos de sua exitosa existência. Tivemos nesse período: Getúlio Vargas, finalizando no suicídio sua carreira de maior estadista da nossa capenga República, Juscelino Kubitschek, Jânio e finalmente João Goulart.
Neste período de 18 anos, ao rever recentemente o documentário Os anos JK, de Silvio Tendler, deu para perceber, ao contrário do que acontece agora,como a sociedade se mobiliza naturalmente quando temos no comando da nação alguém como Juscelino. JK, por sua generosidade, pelo seu espírito notavelmente progressista, com sua pressa de tentar reduzir um pouco o nosso atraso histórico ao proclamar desde o início que faria um governo de 50 anos em 5, tudo isso mexeu de tal forma com o ânimo do brasileiro que o seu mandato foi legendado, especialmente pelos da minha geração, como o dos anos dourados. Olhando hoje pelo retrovisor, no balanço inevitável que fazemos de nossa existência quando nos aproximamos do fim da linha, verificamos que tudo de bom, numa aparente coincidência (apenas aparente), aconteceu naquela época, de 1956 a 1960. 
Os cronistas ainda hoje vivos que viveram aqueles anos convergem na conclusão de que o otimismo de JK, seu dinamismo, sua crença inabalável nas potencialidades criadoras do Brasil resultaram num verdadeiro festival de vitórias e conquistas, de êxitos que marcarão para sempre sua presença na história do Brasil. “Será lembrado para sempre”, como disse ainda em vida um de seus maiores adversários, na tribuna parlamentar, o também mineiro Afonso Arinos de Mello Franco.
Sob Juscelino, na segunda metade do século passado, eclodiram movimentos culturais como o Cinema Novo e a Bossa Nova. O nosso teatro afirmava o gênio de Nelson Rodrigues e a gestação de autores e diretores de teatro que começavam a botar suas mangas de fora, como se dizia então. Plínio Marcos, Vianinha, Guarnieri, Flávio Rangel, Augusto Boal, Antunes Filho, Zé Carlos Martinez Corrêa começaram a agitar nossos palcos com a força e a irreverência de sua juventude revolucionária. Agregue-se a afirmação planetária da arquitetura nacional, com a viva maquete que Brasília representa até hoje. Brasília, muito além disso, simboliza um marco da urbanização do que hoje definimos como Brasilzão, esse mundão interior de terra, apesar do crime que significou a desativação de nossa malha ferroviária e a negação, para o brasileiro atual, do prazer de “andar de trem” para vencer as longas distâncias do nosso país-continental.
Os anos JK deixaram no imaginário coletivo do povo brasileiro um sentimento de vitória, de ser campeão. Os títulos do período foram, todos, de expressão mundial: campeão mundial em 1958, na Suécia; idem de basquete um ano depois, em 1959, Maria Esther Bueno no tênis, Eder Jofre no boxe. Um conselho: os que se interessam pela história do Brasil, para rever ou aprender o que já fizemos de melhor, espantando o complexo de vira-lata, procurem o documentário de Silvio Tendler. A internet resolve essa busca rapidamente. De posse deste documentário admirável sobre um instante luminoso da nossa trajetória no século passado será possível perceber, com grande clareza, as profundas diferenças que hoje nos separam, regressivamente, daquele tempo. Agora, os sinais que a realidade brasileira nos emite apontam para a barbárie. Olhem ao redor.

2. A morte de Ricardo Boechat e Bibi Ferreira nos abala por um profundo sentimento de perda. É dor. Estamos ficando sem condições de suportar, neste cenário sinistro em que está sendo exibida a tragicomédia nacional, notícias que, de modo crescente, nos deprimem sem remédio.