Andando por aí - Correio da Lavoura

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30 de out de 2018

Andando por aí

*João da Rua


Lembranças culturais de um Brasil ameaçado
Neste Brasil derepentemente idiotizado por esta avassaladora paranoia eleitoral à direita, não há mesmo espaço mental para ninguém comemorar, por absoluta ignorância histórica e cultural, os 90 anos de um grande mestre do cinema brasileiro: Nelson Pereira dos Santos, que nos deixou em abril aos 89 anos.
Seu esquecimento não é único. Iguala-se ao de tantos outros brasileiros notáveis cuja lembrança se evaporou em razão de nossa amnésia coletiva. No caso de Nelson, explica-se: esse esquecimento (ou desconhecimento?), excluindo uma minoria de cinéfilos. Nelson era, por ação e pensamento, um socialista, devotado à construção de uma sociedade justa e igualitária. Um comunista que se iniciou na arte cinematográfica produzindo documentários para a seção paulista do velho Partidão. Com a iminência de Bolsonaro presidência da República, Nelson talvez escapasse por sua idade avançada. Fosse ele mais novo, seguindo o receituário fascista do candidato a xerife, seria fatalmente obrigado a optar: ou dá o fora do país ou vai para a cadeia.   
O Brasil que Nelson roteirizou genialmente através de sua câmera, o Brasil de “Rio 40° Graus”, “Rio Zona Norte”, “Vidas Secas”, “Memórias do Cárcere”, o Brasil desse paulistano nascido em 1928, é um Brasil inexistente na cabeça de brucutu que promete apertar o gatilho contra todos aqueles que defendem nossa precária democracia. Tão precária que permite a existência de quem pretende destruí-la.

Sérgio Porto
A lembrança permanente, garimpada em regime de horário integral, nos ajuda a ir tocando a vida neste país que está sendo violentamente desmontado sobretudo no plano cultural. Sérgio Porto – penso que a maioria das novas gerações o desconhecem – é uma das lembranças que nos ajuda a viver na recordação de um passado que hoje nos parece remotíssimo. Não. Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta morreu em outubro de 1968. Há precisos 50 anos. Quando de sua morte escrevi um longo texto aqui mesmo no CL. Tinha então 24 anos. O encontro desse texto me salvou. Me deu pronto um pouco de sua lembrança, num trecho que aqui reproduzo:
“Ao morrer Sérgio Porto, desaparece do cenário da vida, que ele tornou tão alegre, um dos maiores talentos surgidos nos últimos vinte anos na imprensa brasileira. Um talento literário que o jornalismo de um certo modo dispersou em proveito do musicólogo, para quem a história do samba e do jazz não guardava segredos, e do humorista de ‘verve’ insuperável que ele foi.
Do ponto de vista literário, ao fazer a crônica de sua cidade com inigualável graça e de agilidade estilísticas, Sérgio iguala-se a João do Rio. Foi ele o pintor de um grande mural carioca, com uma riqueza de cores que sua sensibilidade captou como ninguém. Em vida, tão ou mais verdadeiro que sua obra espalhada em todos esses anos de jornalismo, o seu comportamento revelou um temperamento gozador e uma inteligência de notável acuidade crítica, virtudes que fizeram de Sérgio o mais digno representante do espírito carioca. A mesma alma encantadora das ruas se valeu desse espírito, no exercício nervoso e exaustivo da crônica diária, pois Sérgio era um escritor de ofício, um trabalhador incansável. Agora mesmo, na reportagem de sua morte, os jornais noticiaram que Sérgio nem na hora de almoçar se libertava da máquina de escrever, fato que vem provar uma frase que ele repetia sempre: ‘Eu sou o preguiçoso que mais trabalha no Brasil’”.