Andando por aí - Correio da Lavoura

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24 de out. de 2018

Andando por aí

*João da Rua

Com uma arma na mão e Deus no coração
Não dá mais. Chega de falar nesta eleição, única em ilícitos em nossa história republicana, e cujo resultado poderá ser a senha de um processo de destruição de um país sonhado por inúmeros brasileiros que lutaram e pensaram ao longo do tempo para construir aqui uma grande e exemplar nação tropical, capaz de encantar o mundo como exemplo de uma nova civilização. Era o que nos dizia, com seu entusiasmo juvenil, o notável Darcy Ribeiro, que não se cansava de repetir que nós, brasileiros, estávamos condenados a cumprir esse destino, ou seja, de ser uma nação única no mundo, como símbolo pronto e acabado de um experimento sócio-político-cultural derivado de uma miscigenação impensável em outro quadrante do planeta. Para ele, o encontro do branco europeu, do índio nativo e do negro africano serviram para moldar o caráter de um povo multifacetado por ambiguidades profundamente esclarecedoras da nossa maneira de ser. Somos alegres e tristes, bons e maus, honestos e pilantras, dinâmicos e preguiçosos. O nosso modelo é daquele que diz que vai e fica, que diz que não vai e aparece na última hora. Somos carnavalescamente mutantes, trocando sempre de máscara, de fantasia Arlequinal. Um bicho que está sempre nos surpreendendo quando menos esperamos.   

Éramos assim. O Brasil de hoje, depois de um longo processo de americanalhação que vem pautando o comportamento do brasileiro há muito tempo, aquele macunaíma que sempre existiu dentro de nós deixou de falar mais alto. Essa onda, esse tsunami anti-nacional e reacionário nunca nos abandonou. Vive de surtos, como em 64 e agora. Não é à toa que Bolsonaro, quando olha para o retrovisor, sente uma enorme saudade da ditadura militar. 

Essa nossa esquerda fajuta, de boutique, é que parece nunca ter percebido este fenômeno que nunca ocultamos. O caráter estupidamente sub-conservador, filho do atraso, da ignorância profunda e do nosso ancestral analfabetismo político nunca foi percebido em sua extensão por muitos daqueles que diziam “pensar o Brasil”. E aqui estamos, mais uma vez, discutindo o espólio político de uma elite dominante, uma escória de elite, tradicionalmente escravocrata e patrimonialista, que sempre cultivou o nosso atraso crônico em nome dos seus projetos de dominação e poder. Essa gente, mesmo enfrentando a resistência de bravos brasileiros que marcaram sua existência por uma história de lutas e sacrifícios em defesa do Brasil e do seu povo, essa gente não recuou jamais. E aí estão, agora em liga com um fundamentalismo evangélico que soube capturar – em nome de Deus e de uma catequese que se apoia na terceirização de Jesus Cristo – a ignorância profunda que habita os corações e mentes dos brasileiros mais simples e ingênuos. Não há saída civilizatória para um projeto de dominação e poder que pretende tocar o Brasil com uma arma na mão e Deus no coração.

A mentira que vem de fora
Abro espaço para Tereza Cruvinel, que em sua coluna de terça-feira no Jornal do Brasil, produziu excelente texto sobre a mentira que vem de fora, ou seja, sobre a participação notória de norte-americanos na produção das fake news, numa eficientíssima operação de campanha digital pró-Bolsonaro. Eis o trecho final do artigo:

“Segundo a revista Fórum, o ativista Everton Rodrigues, responsável pelo blog ‘Falando Verdades’, foi desligado do WhatsApp após divulgar, no sábado, 13, uma lista com mais de 50 grupos pró-Bolsonaro administrados por números telefônicos que ficam nos Estados Unidos, principalmente em cidades da Califórnia. Ele apresentou cópia de um registro dos grupos mantido pela central do aplicativo. Alguns desses números, segundo Everton, atuaram como ‘administradores’ na campanha de Donald Trump, cujo estrategista digital, Steve Bannon, tornou-se consultor de Bolsonaro. Em recente entrevista, Bannon apontou o Brasil como parte de um movimento populista de direita global, que contaria com sua atuação.


Assim, e eleição vai sendo decidida não pelo que Bolsonaro diz, não pelo que ele propõe, no inexistente programa de governo, ou no debate de que se recusa a participar, e sim pelo mar de mentiras que vai arrastando mais eleitores para Bolsonaro, fornecendo os argumentos toscos e infundados que eles brandam exaltados para justificar a escolha feita”.