O VALOR DO SIMBÓLICO EM TEMPOS DE URGÊNCIA - Correio da Lavoura

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10 de fev. de 2026

O VALOR DO SIMBÓLICO EM TEMPOS DE URGÊNCIA

*Vicente Loureiro


Trocar o monumento ao trabalhador, desenhado por Oscar Niemeyer, por um poste porta-câmeras é, em si, um ato rude e grotesco. Retrata o quanto o utilitarismo domina as decisões sobre o destino e a gestão dos bens de uso comum do povo por aqui. Vale a necessidade do momento. O impulso ultrapassa a razão. Desabriga-se o simbólico e aloja-se, em seu lugar, uma urgência qualquer, de última hora.

Pouco importa se as novas tecnologias embarcadas no poste - agora monumento - indiquem ser indispensável um CEP específico para tais câmeras. Muito ao contrário: elas impõem, na verdade, a necessidade de uma distribuição espacial ampliada desses equipamentos, capaz de elevar, de forma consistente, a qualidade dos serviços de segurança pública na região. A rede, nesse caso, torna-se muito mais importante do que os pontos. Ou, melhor, do que os postes.


Não era necessário derrubar a obra de um dos mais celebrados arquitetos do mundo para instalar tais câmeras. Naquela encruzilhada não faltam alternativas. Eleger apenas aquele local como opção combinou prepotência com preguiça, justificando-se a economia de alguns caraminguás como se valesse a pena desfazer-se de um monumento com grife, numa cidade carente de bons exemplos de arquitetura.

Um colega chegou a dizer: “numa região cheia de pórticos de gosto duvidoso, foram derrubar logo o monumento de dimensões despretensiosas e nada vulgar”. Outro, por sua vez, afirmou não ter a obra conseguido se transformar em patrimônio ativo no imaginário da população da cidade. A primeira afirmação, em certa medida, responde à segunda. E ouso complementar, lembrando o papel das obras de arte na construção da identidade e do significado dos lugares.

Não era obra tombada. Razão, então, para tombá-la literalmente? Esquece-se que um singelo exemplar do gênio de Niemeyer, por pior que seja, contribui muito mais para a qualificação da paisagem urbana do que um poste travestido de modernidade. Por melhores que sejam as intenções acopladas ao poste, ele seguirá sendo um poste. Enquanto isso, o monumento ao trabalhador transforma-se em escombro, prova inequívoca do escambo de significados dos tempos atuais.

“Vade retro”, ignorância. A desse tipo nem Deus costuma perdoar.

*Vicente Loureiro é arquiteto e urbanista, doutorando pela Universidade de Lisboa e autor dos livros “Prosa Urbana” e “Tempo de Cidade”.