PROSPERIDADE URBANA COMPARTILHADA - Correio da Lavoura

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27 de jun. de 2022

PROSPERIDADE URBANA COMPARTILHADA

Vicente Loureiro


É fato que o crescimento econômico em países em desenvolvimento é desigual e altamente concentrado nas cidades. Ainda que, no caso brasileiro, parte significativa dele seja produto da renda proveniente das commodities produzidas no campo e de jazidas de riquezas minerais localizadas no interior ou em alto mar. Porém, boa parte dessa riqueza gerada é carreada para os centros urbanos, pois cada vez menos gente vive no campo, ao redor de minas e, muito menos, em plataformas de petróleo.


No entanto, estão nas cidades, sobretudo nas maiores e naquelas pertencentes as regiões metropolitanas, os flagelos urbanos resultantes desse modelo de desenvolvimento concentrador de renda e oportunidades. A falta de saneamento básico, as condições debilitadas de vida nas favelas, os lugares dominados pelo crime, a moradia inadequada e a permanente exposição a riscos ambientais e climáticos, entre outros atributos, representam física e concretamente a exclusão dos mais pobres a um padrão de vida já disponível e possível de ser melhor distribuído a todos e sem deixar ninguém para trás.

O que nos impede de compartilhar essa prosperidade alavancada pela economia de aglomeração em cidades densamente povoadas? Quais os entraves que estão a obstaculizar a universalização de políticas públicas promotoras da inclusão dos mais pobres e redução da informalidade econômica e urbana ainda tão presentes? Como enfrentar o dilema do quanto mais próspera a cidade fica, mais pobres ela atrai? Será possível virar esse jogo? 


Não são perguntas simples de se responder e talvez as respostas não estejam ao alcance apenas dos governos locais, apesar deles terem a competência institucional de moldar, através de suas políticas, a conformação e o desenvolvimento das cidades. Há, contudo, orientações de governo que estão sob o domínio de esferas superiores, como, por exemplo, a economia a cargo do governo federal e a segurança pública sob responsabilidade estadual. Ambas com impactos diretos sobre o viver urbano e que, atualmente, geram ainda mais pobreza e insegurança nas cidades, como demonstram os indicadores sociais que registram aumento da população em situação de rua, do déficit habitacional, da violência urbana, do desemprego e da informalidade tanto no modo de ganhar a vida quanto no de conseguir um abrigo.

Imagino ser necessário, no caso das cidades brasileiras, a elaboração de uma espécie de “Plano Real” para o seu desenvolvimento urbano. Assim, como o outro extinguiu a inflação, seu similar urbanístico teria como meta síntese a busca da redução significativa da expansão e adensamento urbano precarizado e informal, já que as teorias econômicas parecem compreender ser impossível zerar essa iniquidade urbanística, o plano definiria objetivos cumulativas e atingíveis a médio prazo. Talvez em uma década já pudéssemos colher resultados significativos.

Sei o quanto pode ser complexa a tarefa de elaborar um “Plano Real” para o desenvolvimento inclusivo e mais harmonioso das cidades, principalmente por envolver políticas de distintos níveis de governo. Porém, o modo de viver nelas, sobretudo nas cidades grandes e metropolitanas, está ficando desgastante para todos e insuportável para uma parcela cada vez maior de seus habitantes. Ou, a exemplo dos economistas pais do Real, ousemos enfrentar os entraves políticos e aparentemente intransponíveis dessa missão ou então assistiremos perplexos a banalização de cenas de barbárie, subjugando os atos resistentes de urbanidade civilizada praticados por aqueles que acreditam numa vida melhor nas cidades, mas indistintamente para todos.

*Vicente Loureiro é arquiteto, urbanista e escritor.