QUE RIO É ESSE? - Correio da Lavoura

Últimas Notícias

9 de fev. de 2022

QUE RIO É ESSE?

Vicente Loureiro

Há 35 anos, um verão carioca tornar-se-ia inesquecível. Um carregamento de maconha, embarcado na Austrália para os Estados Unidos, foi jogado ao mar e suas latas chegaram as praias do litoral sul do país. Na orla do Rio, virou um acontecimento. O “verão da lata” marcou presença com a irreverência de sempre, acompanhada dessa vez de muitas “viagens” e risadas.


Vivíamos em um “outro país”. Recém-saídos da ditadura, víamos nascer uma nova Carta Magna. Ao mesmo tempo em que a seleção de basquete ganhava medalha de ouro nos jogos Pan-americanos e Nelson Piquet sagrava-se tricampeão mundial de Fórmula 1. Brasília fervilhava, enquanto o centrão, o próprio, fazia de tudo para limitar os avanços da chamada Constituição Cidadã. Ouvia-se à época “Que país é esse?” e “Codinome beija-flor”. Havia esperança no ar. O futuro parecia anunciar sua tão esperada chegada.


Passados tanto tempo, um novo verão chega, mas com outra marca. A graça de um país retomando a democracia e a leveza de uma cidade irreverente por natureza são substituídos por um clima de intolerância e brutalidade. Só nas 3 semanas do mês de janeiro foram registradas 12 tentativas de linchamentos nas praias da zona sul carioca. Culminando, na noite do último dia 24, com o covarde e injustificável assassinato a pauladas do congolês Möise Mugenyi no quiosque onde prestava serviços.


A comemorar em tempos tão sombrios temos a vacinação de 3/4 da população, apesar do negacionismo e demora nas ações das autoridades federais. De resto, lamentar a inflação de volta aos dois dígitos, a gasolina a R$ 8,00 o litro e os danos provocados pelas fortes chuvas na Bahia, em Minas e São Paulo. Para piorar, o carnaval sendo cancelado pelo segundo ano consecutivo. O astral é outro. Embalados, agora, por canções intituladas “Facas”, “Ficha Limpa” ou “Desbloqueado”. Demonstrando que até poesia depende da política naquilo que ela tem de melhor: nos conduzir no rumo das conquistas de dias mais felizes e em paz.

O Rio, um dos melhores destinos turísticos do planeta, não merece esses atos de barbárie em série. Nem tão pouco precisa conviver com arrastões e furtos de celulares em suas praias. Fico a imaginar a indignação que despertaria no mundo, se uma dúzia de linchamentos ocorresse em 3 semanas no Central Park de Nova York, nos arredores da Torre Eiffel ou na Trafalgar Square, em Londres. Uma cidade com praias tão encantadoras e fama de ter um povo com jeito único de levar a vida não pode ter sua imagem maculada pela intolerância dos que, em pleno século 21, ainda querem fazer justiça com as próprias mãos. Basta de violência. O Rio não suporta mais ser cenário de tantas e recorrentes barbaridades.

*Vicente Loureiro é arquiteto e urbanista.