Utilidade Lúdica: Missa do galo - Correio da Lavoura

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16 de mai. de 2018

Utilidade Lúdica: Missa do galo

Por: Victor Loureiro


Seus pais costumavam passar uma parte da noite de Natal na casa de Dona Maria, uma portuguesa de sotaque tão carregado que não dava para acreditar que aquela era sua língua mãe.
Mas isso pouco importava, pois o que era oferecido à mesa farta daquela casa com varanda generosa e que ficava em uma das esquinas da Rua Amaral Peixoto permaneceria para sempre em sua memória gustativa. Tratava-se do melhor bacalhau que iria provar na vida.

A dona da casa, responsável por essa iguaria, vestia sempre preto e ostentava um crucifixo dourado em seu pescoço coberto por uma gola alta, como exigia sua fidelidade católica.
Pouco antes da meia noite, ele, seus pais e seu irmão, caminhavam por uma Nova Iguaçu inimaginável nos dias de hoje, seguiam até a Catedral de Santo Antônio, que ficava em frente à cancela, para assistirem à Missa do Galo.

Nessa época, nossos olhos eram providos de uma espécie de raio-X que conseguia atravessar o limite dos dois lados da linha férrea, hoje impossível de ser transposto, devido à construção de um muro de iguaçunita. Isso mesmo, iguaçunita, um mineral extraterrestre que tem a propriedade de enfraquecer os poderes dos habitantes, os quais nunca mais viram a cidade inteira, nem mesmo os trens passando.
Era como se as maçãs nascessem já divididas ao meio. Como se as bonecas russas não coubessem em sua natureza múltipla e contínua de guardarem-se em si mesmas. Como se o significado das palavras dissolvesse seus próprios signos. Não há pior maneira de matar a alma de um povo do que fazê-lo esquecer. Esquecer que as pontes não devem aniquilar a beleza e a importância do rio. Esquecer que, mesmo sendo bicho, temos a capacidade de conviver com nossos limites inatos de animais agressivos e alcançar o firmamento cognitivo de quem conquista uma paz social mínima onde a iguaçunita não tenha o poder de enfraquecer nossas humanidades.

Hoje só nos resta o senso de humor para tentar escapar a toda essa lógica perversa de rezar a missa do galo mais cedo, porque perto da meia-noite o galo engasga de medo e não canta.

E foi numa festa infantil, depois de muito conversar sobre essa terra tomada de maçãs nascidas pela metade, de pontes construídas sobre rios mortos, de zumbis sem memória e afeto, de um povo que se esqueceu de si próprio e que parece estar entre as personagens do filme “A festa”, que só consegue ver as pernas das pessoas dançando, no andar de cima, divertindo-se, comendo, bebendo, mas não consegue participar da farra, que ele ouviu do avô da aniversariante uma frase que resumiu toda essa situação vexaminosa:
“É, meu amigo, do jeito que a coisa está, até os galos estão cantando mais cedo!”