*Jorge Gama
A cidadania é uma conquista civilizatória. Ela nasce de um pacto social construído em torno de princípios, valores éticos e morais, que encontram na representação política uma de suas formas mais importantes de expressão.
É por meio do voto que esse pacto se renova. O voto é o instrumento pelo qual o cidadão participa da escolha daqueles que receberão a responsabilidade de representá-lo.
Hoje, graças à tecnologia digital, podemos estabelecer uma comparação simbólica: o voto é um Pix Eleitoral.
É importante deixar claro: não se trata, evidentemente, da compra de votos - prática nefasta que contamina o Estado Democrático de Direito. A comparação está no conceito de transferência de valor.
Quando deposita seu voto na urna, o eleitor transfere algo que lhe pertence: sua confiança, sua esperança e sua expectativa de um futuro melhor. Entrega ao candidato uma credencial para exercer um mandato em seu nome.
O voto, portanto, não deveria ser visto apenas como um instrumento para eleger alguém. Ele é uma espécie de moeda de confiança social.
O eleitor transfere essa moeda esperando recebê-la de volta, não em dinheiro, mas em realizações: melhores serviços públicos, respeito às leis, transparência, responsabilidade, compromisso e melhoria concreta das condições de vida da população.
É nesse sentido que o voto pode ser compreendido como um Pix Eleitoral.
E há uma consequência importante nessa nova leitura.
Quando o eleitor percebe que seu voto possui valor e que ele próprio é o legítimo proprietário dessa moeda, talvez reflita melhor antes de decidir para quem irá transferi-la.
Da mesma forma, quem recebe esse voto deveria compreender que não recebeu um patrimônio pessoal. Recebeu uma confiança que pertence à sociedade.
O eleito torna-se, assim, depositário de uma moeda de alto valor social. E deverá devolvê-la, ao longo do mandato, em forma de trabalho, resultados, coerência, respeito ao cidadão e prestação de contas.
A cada eleição, esse crédito é renovado, reduzido ou simplesmente retirado.
O problema é que, muitas vezes, o voto termina sua trajetória na urna. A esperança que o acompanhou até o momento da escolha começa a desaparecer logo depois da eleição.
Talvez seja hora de mudar essa percepção.
O voto não é apenas uma escolha. É um crédito de confiança.
E, se quisermos usar a linguagem do nosso tempo, pode ser compreendido como um Pix Eleitoral: uma transferência feita pelo cidadão para financiar democraticamente um mandato, com a expectativa legítima de receber, em retorno, aquilo que toda democracia deveria produzir - representação responsável, resultados concretos e respeito ao interesse coletivo.
Mais do que uma caricatura, essa nova leitura pretende ser uma medida de valor político do voto e, sobretudo, uma lembrança de que o cidadão não entrega seu voto para perdê-lo.
Ele o transfere.
E quem o recebe tem uma obrigação: honrar a transferência.
*Jorge Gama é advogado e ex-deputado federal.
